Aos 19 anos, Marcelo Marques não estudava, não trabalhava e sonhava em ser jogador de futebol. Hoje, é o homem que entregou ao Grêmio o que nenhuma diretoria conseguiu em 10 anos: a posse definitiva da Arena. Pagou R$ 130 milhões do próprio bolso, quitou dívidas históricas e doará o estádio ao clube.
Mas sua trajetória começa bem longe da elite dos negócios. No fim dos anos 90, morava com os pais em Canoas (RS), ajudava a mãe com buffet nos fins de semana e passava os dias entre peladas e devaneios.
O irmão mais velho, Claudiomar, era policial militar. Fazia bico como segurança em um mercado de Gravataí, onde o dono vivia oferecendo uma padaria que abastecia cinco mercados, mas que ele queria vender por R$ 30 mil. A proposta chegou ao almoço de domingo da família. Claudiomar topou: pagaria metade, e o pai, recém-aposentado, emprestaria a outra metade a Marcelo, que precisava começar a vida.
Ele se mudou para Gravataí sem saber nada de pão. Para o irmão, aquilo era um bico. Para Marcelo, era tudo. Trabalhava 20 horas por dia. Abria mercados de madrugada para entregar pães crus. Convencia os donos a lhe darem a chave, e logo, tinha um molho com mais de 200.
A Kombi da mãe virou o primeiro furgão. Pintaram as janelas para esconder os pães. Improvisaram. Começaram com 5 clientes. Viraram 10. Depois 50. Nascia a Marquespan, com o lema: “Para nós, o pão é sagrado”.
Em 2001, começou a vender o pão congelado e a Marquespan cresceu exponencialmente. Importou máquinas da Alemanha, Holanda e Suécia. Automatizou tudo. Cada linha de produção passou a fabricar quase 2 milhões de pães por dia. Hoje, são 21 dessas máquinas.
A empresa tem cerca de 700 caminhões refrigerados, entregando a mais de 20 mil mercados no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
“Nosso pão não é o mais barato, mas é o melhor”, diz Marcelo. Embalagens reforçadas, logística de ponta, controle rigoroso. E uma política clara: todo lucro é reinvestido. Sempre foi assim. “Empresa rica, dono pobre”, resume.
Em 2013, a Marquespan abriu uma fábrica em São Paulo. Marcelo mudou-se para comandar a operação. O irmão ficou no Sul. Aí veio a primeira grande divergência: enquanto Claudiomar queria colher os frutos, Marcelo queria seguir plantando. Dividiram a empresa: um em cada estado. Marcelo recomeçou.
Durante a pandemia, reassumiu o Sul e o irmão se aposentou. Foi nesse período que, assistindo a um programa esportivo, teve a ideia: patrocinar o Grêmio, só para ouvir o nome da Marquespan no intervalo dos jogos. Era o torcedor unindo paixão e estratégia.
Conheceu a diretoria, fechou contrato. E em 2024, protagonizou o movimento mais simbólico de sua vida gremista: quitou as dívidas da Arena, comprou a gestão e repassará o estádio ao clube, que só o teria em 2033.
Marcelo não virou jogador, mas mudou o jogo. Construiu um império de pães, criou valor com reinvestimento, ousadia e visão de longo prazo. E hoje, o torcedor virou patrono. E provou que quem entrega valor transforma até a história de um clube.
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